A maneira mais rápida de chegar ao Parque é através de Petrolina, cidade do Estado de Pernambuco, da qual dista 300 Km. A cidade de Petrolina dispõe de um aeroporto onde opera atualmente a Gol, e a BRA, ligando a região com Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
A criação do Parque Nacional Serra Capivara teve múltiplas motivações ligadas à preservação de um meio ambiente específico e de um dos mais importantes patrimônios culturais pré-históricos. As características que mais pesaram na decisão da criação do Parque Nacional são de natureza diversa:
- culturais - na unidade acha-se uma densa concentração de sítios arqueológicos, a maioria com pinturas e gravuras rupestres, nos quais se encontram vestígios extremamente antigos da presença do homem (100.000 anos antes do presente). Atualmente estão cadastrados 912 sítios, entre os quais, 657 apresentam pinturas rupestres, sendo os outros sítios ao ar livre (acampamentos ou aldeias) de caçadores-coletores, são aldeias de ceramistas-agricultores, são ocupações em grutas ou abrigos, sítios funerários e, sítios arqueo-paleontológicos;
- ambientais - área semi-árida, fronteiriça entre duas grandes formações geológicas - a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco - com paisagens variadas nas serras, vales e planície, com vegetação de caatinga ( o Parque Nacional Serra da Capivara é o único Parque Nacional situado no domínio morfoclimático das caatingas), a unidade abriga fauna e flora específicas e pouco estudadas. Trata-se, pois, de uma das últimas áreas do semi-árido possuidoras de importante diversidade biológica;
- turísticas - com paisagens de uma beleza natural surpreendente, com pontos de observação privilegiados. Esta área possui importante potencial para o desenvolvimento de um turismo cultural e ecológico, constituindo uma alternativa de desenvolvimento para a região.
Em 1991 a UNESCO, pelo seu valor cultural, inscreveu o Parque Nacional na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 2002 foi oficializado o pedido para que o mesmo seja declarado Patrimônio Natural da Humanidade.
O Parque Nacional Serra da Capivara é subordinado à Diretoria de Ecossistemas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), tendo sido concluída a sua demarcação em 1990. Em torno do Parque foi criada uma Área de Preservação Permanente de dez quilômetros que constitui um cinto de proteção suplementar e na qual seria necessário desenvolver uma ação de extensão. Em 1994 a FUMDHAM assinou um convênio de co-gestão com o IBAMA em 2002 um contrato de parceria com a mesma instituição.
Depois de criado, o Parque Nacional esteve abandonado durante dez anos por falta de recursos federais. Análises comparativas das fotos de satélite evidenciaram esse fato. Durante este período a Unidade de Conservação foi considerada “terra de ninguém” e como tal, objeto de depredações sistemáticas. A destruição da flora tomou dimensões incalculáveis; caminhões vindos do sul do país desmatavam e levavam, de maneira descontrolada, as espécies nobres. O desmatamento dessas espécies, próprias da caatinga, aumentou depois da criação do Parque, em decorrência da falta de vigilância.
A caça comercial se transformou numa prática popular com conseqüências nefastas para as populações animais que começaram a diminuir de forma alarmante. Algumas espécies, como os veados, emas e tamanduás praticamente desapareceram. Estes fatos tiveram conseqüências negativas na preservação do patrimônio cultural. A falta de predadores naturais provocou um crescimento descontrolado de algumas espécies, como cupim ou vespas cujos ninhos e galerias destroem as pinturas.
As causas desta situação são em parte externas à região, mas também decorrem da participação da população que vive em torno do Parque. São comunidades muito pobres, algumas das quais exploravam roças no interior dos limites atuais do Parque. Estas populações dificilmente compreendem a necessidade de proteger espécies animais e vegetais uma vez que os seres humanos apenas logram sobreviver. Assim, a população local depredava as comunidades biológicas e o patrimônio cultural do Parque Nacional e áreas circunvizinhas, pela caça, desmatamento, destruição de colméias silvestres e a exploração do calcário de afloramentos, ricos em sítios arqueológicos e paleontológicos.
na unidade acha-se uma densa concentração de sítios arqueológicos, a maioria com pinturas e gravuras rupestres, nos quais se encontram vestígios extremamente antigos da presença do homem (100.000 anos antes do presente). Atualmente estão cadastrados 912 sítios, entre os quais, 657 apresentam pinturas rupestres, sendo os outros sítios ao ar livre (acampamentos ou aldeias) de caçadores-coletores, são aldeias de ceramistas-agricultores, são ocupações em grutas ou abrigos, sítios funerários e, sítios arqueo-paleontológicos;
- ambientais -
área semi-árida, fronteiriça entre duas grandes formações geológicas - a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco - com paisagens variadas nas serras, vales e planície, com vegetação de caatinga ( o Parque Nacional Serra da Capivara é o único Parque Nacional situado no domínio morfoclimático das caatingas), a unidade abriga fauna e flora específicas e pouco estudadas. Trata-se, pois, de uma das últimas áreas do semi-árido possuidoras de importante diversidade biológica;
- turísticas - com paisagens de uma beleza natural surpreendente, com pontos de observação privilegiados. Esta área possui importante potencial para o desenvolvimento de um turismo cultural e ecológico, constituindo uma alternativa de desenvolvimento para a região.
Em 1991 a UNESCO, pelo seu valor cultural, inscreveu o Parque Nacional na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 2002 foi oficializado o pedido para que o mesmo seja declarado Patrimônio Natural da Humanidade.
As causas desta situação são em parte externas à região, mas também decorrem da participação da população que vive em torno do Parque. São comunidades muito pobres, algumas das quais exploravam roças no interior dos limites atuais do Parque. Estas populações dificilmente compreendem a necessidade de proteger espécies animais e vegetais uma vez que os seres humanos apenas logram sobreviver. Assim, a população local depredava as comunidades biológicas e o patrimônio cultural do Parque Nacional e áreas circunvizinhas, pela caça, desmatamento, destruição de colméias silvestres e a exploração do calcário de afloramentos, ricos em sítios arqueológicos e paleontológicos.
Pessoal saber que vocês estão acompanhando e comentando as postagens me da muita força para continuar pois a saudade de casa é grande e a diversidade também, mas estou conseguindo muito material e informação, e voces vão gostar do que ainda vem pela frente, tenho lido todos os comentários e fico no aguardo deles, abraços a todos que estão me seguindo pelo Nordeste, espero que possa estar mostrando para voces um pouquinho dele, e comigo está tudo bem e com a moto também.
Vamos continuar
Abraços a todos
Adalberto
Potencial turístico do Parque Nacional Serra da Capivara
O maior atrativo do Parque é a densidade e diversidade de sítios arqueológicos portadores de pinturas e gravuras rupestres pré-históricas. É um verdadeiro Parque Arqueológico com um patrimônio cultural de tal riqueza que determinou sua inclusão na Lista do Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Durante milênios as paredes dos sítios foram pintadas e gravadas por grupos humanos com diferentes características culturais que se refletem nas escolhas gráficas que aparecem nos sítios. O visitante pode hoje observar um produto gráfico final que foi realizado gradativamente e que pela sua narratividade evoca fatos da vida cotidiana e cerimonial da vida em épocas pré-históricas.
A esse interesse antropológico se soma uma rara beleza e qualidade artística das obras que apesar de traços similares às pinturas pré-históricas das cavernas da França e da Espanha, abrigos sob rocha da Austrália, apresenta um perfil típico, único na região do Nordeste do Brasil.
A densidade dos sítios arqueológicos e paleontológicos permitiu o desenvolvimento de pesquisas constantes há 3 décadas, fornecendo informações sobre a origem do homem na região, a evolução climática e as transformações da paisagem nos últimos 100.000 anos.
Esses sítios arqueológicos estão localizados num contexto geológico igualmente diversificado, que retraça o processo de formação da região há 240 milhões de anos com o levantamento do fundo do mar. A cuesta que hoje delimita o parque arqueológico, um paredão de arenito de imponentes proporções, configura uma paisagem de grande beleza natural. Sobre a planície do escudo brasileiro existem afloramentos kársticos com cavernas e lagos subterrâneos. Uma paisagem de serra e de planície se estende com ‘inselbergs’ esparsos.
O clima da região é hoje semi-árido. A vegetação é a caatinga, com ilhas de floresta tropical úmida que se conservam em boqueirões estreitos. Entre novembro e maio, estação das chuvas, a vegetação apresenta uma surpreendente exuberância de flores e tonalidades de verde. Em junho as folhas da maior parte das espécies, amarelecem e caem. A paisagem se transforma numa floresta de troncos cinza e de ramas densamente entrelaçadas. É o período da cor homogênea, um manto malva cobre áreas extensas de uma vegetação que espera o retorno das chuvas para repetir o rito da metamorfose e da explosão de vida e cores.
Fauna está em processo de recuperação, animais de diversas espécies atravessam os caminhos, podendo ser observados pelos visitantes. Atualmente é possível ver onças, macacos, caitetus, veados, jacús, águias chilenas, cotias, preás, serpentes, iguanas, lagartos, periquitos, andorinhas e outras espécies de aves, em profusão.
O céu azul profundo e claro na época seca, corresponde a períodos em que as noites são frias, podendo o termômetro descer a 10 graus C. Ao invés, grandes tempestades elétricas, nuvens pesadas, chuvas torrenciais acontecem entre outubro e maio.
Atualmente os sítios preparados para a visitação atingem o número de 128 dos quais, 16 oferecem os serviços de acesso para as pessoas com dificuldade de locomoção.
Fonte: Fumdham
Patrimônio cultural
As pinturas rupestres são a manifestação mais abundante, conspícua e espetacular deixada pelas populações pré-históricas que viveram na área do Parque Nacional, desde épocas muito recuadas. Nos primeiros anos de pesquisa fizeram-se sondagens e escavações para datar essas pinturas e situá-las em um contexto sócio-cultural preciso. Esses trabalhos permitiram a descoberta de sítios que apresentavam vestígios de presença humana excepcionalmente antigos, o que incitou os pesquisadores a acelerar e a ampliar as escavações procurando obter uma massa de dados coerentes que fundamentassem esta descoberta que revolucionava as teorias sobre o povoamento das Américas. Entre os anexos encontra-se a lista dos resultados das datações obtidas pela técnica da análise do Carbono 14 para esta área. Essa lista mostra que o Homem já vivia na área do Parque Nacional desde há, pelo menos, 50.000 anos atrás e que sua presença foi contínua até a chegada dos colonizadores brancos. Os povos mais antigos eram caçadores-coletores, isto é, viviam da caça e da coleta de produtos animais e vegetais, como ovos, mel, frutos, raizes, tubérculos, etc. Em três sítios (veja encarte), que são visitados pelo público, encontramos vestígios de presença humana muito antiga: a Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada, a Toca do Sítio do Meio e a Toca do Caldeirão do Rodrigues I. Os três sítios que apresentaram as mais antigas datações obtidas na área do Parque Nacional são abrigos-sob-rocha. Um abrigo-sob-rocha forma-se pela ação da erosão que agindo na base dos paredões rochosos vai desagregando a parte baixa das paredes fazendo com que se forme, no alto, uma saliência. Esta funciona como um teto que protege do sol e da chuva o solo que fica sob o mesmo. Com o progresso da erosão, a saliência torna-se cada vez mais pronunciada até que, sob a ação da gravidade, fratura-se e desmorona. Os homens utilizaram a parte protegida dos abrigos como casa, acampamento, local de enterramentos e suporte para a representação gráfica da sua tradição oral. Sobre os vestígios deixados por um grupo humano, a natureza depositava sedimentos que os cobriam. Novos grupos, novos vestígios, nova sedimentação. A repetição desse ciclo durante milênios forma as camadas arqueológicas, nas quais os arqueólogos encontram todos os elementos que permitem a reconstituição da vida dos povos pré-históricos. Na linguagem regional os abrigos são chamados tocas. A Toca do Boqueirão da Pedra Furada encontra-se a 19 metros acima do nível do vale, protegida por grandes blocos originários do desmoronamento do paredão rochoso. Sua formação deve-se, como em todos os sítios da região, à erosão que cava a base da parede, formando uma projeção que serve de teto. O processo de formação das camadas arqueológicas deste sítio durou, no mínimo, 60.000 anos. As escavações, iniciadas em 1978, duraram 10 anos e permitiram a descoberta dos mais antigos vestígios, até hoje conhecidos, da presença humana nas Américas: fogueiras estruturadas e uma grande quantidade de artefatos de pedra lascada. Blocos de parede com pinturas, caídos sobre as camadas arqueológicas, permitiram a datação das mesmas. Os vestígios mais antigos são duas manchas vermelhas datadas de 23.000 anos, dois segmentos paralelos de reta datam de 17.000 anos, enquanto que pinturas representando temas semelhantes aos que subsistem hoje nas paredes, foram pintadas entre 12.000 e 6.000 anos atrás. Nesse sítio foi possível reconstruir a história das ocupações humanas desde há cerca de 60.000 anos até 6.000 anos atrás. O Sítio do Meio encontra-se a apenas 3 m. acima do nivel do vale e foi cavado por um caudaloso rio que nascia no boqueirão que passa frente ao abrigo. O rio cavou a base da parede e, quando a projeção do teto ficou muito grande, sem sustentação, houve um primeiro desmoronamento, que cobriu a praia do rio. Esse episódio se deu há 20.000 anos. Os homens aproveitaram essa parede e se instalaram atrás dela, protegidos dos ataques dos animais. Depois do primeiro houve mais 3 grandes desmoronamentos, sendo que o último aconteceu há cerca de 8.000 anos. Este sítio é importante porque nele encontramos: fragmentos da cerâmica mais antiga das Américas, datada de 8.960 anos, o primeiro artefato americano de pedra polida, uma machadinha datada de 9.200 anos. Durante muitos anos, até os anos 60, foi utilizado como casa de farinha. Quando iniciamos a escavação encontramos os restos de um forno de farinha, que foi reconstruído segundo a tradição local. A escavação deste sítio ainda não foi terminada. A Toca do Caldeirão dos Rodrigues é um abrigo formado em um vale alto, cerca de 80 m. acima do vale do Boqueirão da Pedra Furada. Suas pinturas, escondidas atrás de um imenso bloco caído, retratam cerca de 12.000 anos de evolução estilística e cultural. As escavações, ainda não terminadas, já permitiram encontrar vestígios da presença humana de 18.000 anos. Na Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada as escavações, iniciadas em 1978, demonstraram que o abrigo foi utilizado pelo homem pré-histórico, pelo menos desde há cerca de 50.000 anos. Os primeiros acampamentos, ocuparam parte da base rochosa próximo à parede do fundo. O local era então protegido do vale por um amontoado de blocos caídos. A medida em que o tempo passava a erosão fazia com que sedimentos desprendidos da parede, cobrissem os vestígios humanos que aí eram depositados de maneira intermitente. Deste modo, formaram-se camadas que refletem 15 fases de ocupação, as quais podem ser agrupadas em 3 fases culturais: uma primeira fase, Pedra Furada, que compreende os grupos mais antigos; a fase Serra Talhada, que corresponde às populações que freqüentaram o abrigo, desde há 12.000 anos B.P. até cerca de -7.000/-6.000 anos e finalmente uma fase que parece corresponder à chegada de um novo grupo na região, a fase Agreste. Durante a fase cultural mais antiga, Pedra Furada, foram construídos grandes fogões circulares utilizando blocos caídos, nos quais se notam ainda leves manchas de pigmento vermelho. Carvões recolhidos em fogões descobertos na mesma camada em que foram encontrados esses blocos puderam ser datados; assim sabemos que, por volta de 23.000 anos atrás, essas populações já aplicavam pigmentos sobre as paredes do abrigo. Um bloco, encontrado ao lado de um fogão datado de 17.000 anos, mostrava duas retas paralelas, sendo esta a primeira manifestação segura da prática da pintura rupestre na área. As sondagens praticadas nos dois outros sítios citados, Toca do Sítio do Meio e Toca do Caldeirão dos Rodrigues I, completam e confirmam esta seqüência crono-cultural. Portanto, as primeiras populações que haviam chegado à região por volta de 50.000 anos atrás, colonizaram-na, adaptaram sua economia e vida social às condições ambientais locais e conseguiram explorar, com sucesso, todos os ecossistemas da região do Parque Nacional. A partir de 12.000-10.000 anos os grupos humanos encontrados já mostram que há diversas culturas diferentes dividindo o espaço e que a as populações são bem mais numerosas que no início. As escavações na Toca do Sítio do Meio permitiram conhecer importantes detalhes sobre a evolução climática na região e sobre a tecnologia dos povos que aí acamparam. Nesse sítio foram descobertos pedaços de cerâmica, datados de 8.960 anos, o que faz delas as mais antigas das Américas. Nele também foi descoberta a primeira peça de pedra polida da Américas, uma machadinha datada de 9.200 anos. Um dos mais importantes sítios para o estudo dessas populações foi a Toca do Baixão do Perna I, escavada durante os anos de 1987 a 1990. Uma sucessão de 6 níveis, sendo o mais antigo datado de 10.500 anos antes do presente, mostrou uma ocupação humana contínua, tendo o sítio servido de acampamento de maneira semi-permanente, desde pelo menos há cerca de 12.000 anos até 3.500 anos atrás. Uma grande quantidade de fogões caracterizava todos esses níveis. No solo, junto a eles, encontramos grande quantidade de pedra lascada e de vestígios da caça que aí foi assada: tatus, preás, mocós, aves, veados, roedores diversos. Restos de frutos e de folhas demonstravam a utilização de recursos vegetais; um fragmento de estipe de carnaúba mostrou que o grau de umidade deveria ter sido mais importante, pois atualmente não existem carnaúbas nesse vale; outra possível explicação seria que os homens pré-históricos a trouxeram de outra área. Os instrumentos de pedra lascada encontrados, apresentam uma certa variação, demonstrando que os grupos ocupantes do abrigo exerciam uma atividade diversificada no interior do mesmo. Lascas retocadas, raspadores de vários tipos, lesmas, facas, pontas, furadores, além de restos de lascamento (percutores, núcleos, lascas e fragmentos) constituem o essencial da coleção. Grande quantidade de pigmento vermelho e restos de parede caída portando figuras pintadas demonstram a prática constante de atividades picturais. Esses povos mais recentes utilizavam não somente as rochas locais como matéria-prima, mas iam também procurá-la em outras áreas. Assim começaram a utilizar o sílex e a calcedônia, matérias-primas extremamente favoráveis ao trabalho do lascamento. A partir de 9.000 anos o sílex torna-se a matéria-prima preferencial e é utilizado com uma preocupação evidente de econômia do material. Sondagens e coletas de superfície feitas em mais de vinte sítios demonstram a expansão notável desses povos, a riqueza e o equilíbrio dessas sociedades que dominavam, toda a área do Parque Nacional. A base econômica continuava a ser a caça, a coleta e a pesca; as pinturas rupestres retratam com detalhes a evolução sócio-cultural desses grupos durante pelo menos 6.000 anos, o que constitui um dos mais longos e importantes arquivos sobre a Humanidade disponível, hoje, no mundo. Houve, a partir de 10.000 anos, uma aridificação marcada pela modificação de uma grande parte dos recursos naturais. Isto tornou os ecossistemas mais frágeis e com pouca capacidade para suportar uma pressão antrópica intensa. Por volta de -6.000 anos desaparecem todos os vestígios dos hábeis artesãos pré-históricos de tradição Nordeste. Em seu lugar, dominam agora vários grupos acantonados dentro de limites definidos: nas serras, nas antigas posses dos povos Nordeste, dominam os povos de tradição Agreste; na planície encontramos manifestações de um povo ligado a uma tradição que tem uma vasta distribuição geográfica em todo o Nordeste: a tradição Itacoatiaras de Leste; este último parece ter aí se instalado desde há mais tempo, talvez cerca de 8.000 anos . Essas sociedades pré-históricas viviam em equilíbrio com o meio ambiente, que utilizavam de diferentes maneiras, sem jamais esgotá-lo. O modelo econômico que podemos deduzir dos estudos feitos na região do Parque Nacional é o seguinte: - no início, ocupando um espaço vazio, sem concorrentes, os primeiros grupos praticaram uma exploração concentrada em certos pontos, pois a rentabilidade era boa e não exigia grandes esforços. Mesmo a matéria-prima para as ferramentas de pedra era sempre a que se encontrava o mais perto possível do sítio; -a partir de 10.000 atrás, pressionados pelas mudanças climáticas e pela provável diminuição do potencial dos ecossistemas, resultado do desaparecimento da megafauna, houve uma adaptação que se manifesta por uma utilização variada, alternativa, de todas as possibilidades oferecidas pelo meio natural. Há até uma seleção da matéria-prima, que passa a ser coletada, às vezes, longe dos acampamentos ou aldeias, buscando uma maior qualidade que resulta em uma eficácia maior no controle da tecnologia da fabricação das peças; - a partir de 3.500-3.000 anos atrás,encontramos os primeiros vestígios deixados por povos agricultores, mas esta prática pode ter existido anteriormente o que deverá ser verificado por novas pesquisas; - entre 3.000 e 1.600 anos, encontramos vestígios de povos que viviam em aldeias redondas que comprendiam entre 10 e 11 casas elípticas, dispostas em volta da praça central. Estas aldeias ocupavam os vales largos da planície da depressão periférica, ou o alto da chapada, nas formações sedimentares. Além de restos de potes de cerâmica, descobrimos mãos de pilão, discos polidos perfurados, machados lascados e semi-polidos, machados polidos e tembetás de jadeíte que completam o complexo técnico desses povos. Tinham costumes funerários muito elaborados e praticavam sepultamentos secundários em urnas ou em covas na terra. Apesar da diversidade dessas sepulturas um fato é constante: a cabeça recebia um tratamento diferenciado: era separada do resto do corpo e enterrada sobre o arranjo feito com os outros ossos, algumas vezes 20 ou 30 cm mais alto que o montículo de ossos longos. A cabeça era sempre coberta, seja por uma cabaça cortada na metade, seja por um recipiente de cerâmica. As plantas cultivadas eram o milho, o feijão, a cabaça e o amendoim. A agricultura nesta área requer uma adaptação técnica e social para poder fazer face às épocas de seca. Nossa hipótese de trabalho é que esses grupos, apesar de plantarem, utilizavam, com a mesma desenvoltura que os caçadores-coletores, os recursos naturais e que, nas épocas de grande seca, se deslocavam para as regiões mais próximas aos grandes rios perenes, por exemplo, o São Francisco, que não fica muito distante da área. Isto implica naturalmente uma organização social na qual os deslocamentos temporários constituíam uma constante no modus vivendi. As pesquisas sobre os grupos de povos ceramistas da região foram numerosas nestes últimos anos o que possibilitou uma primeira reconstituição da vida dessas sociedades. A cerâmica pré-histórica aparece em vários sítios arqueológicos que podem ser abrigos ou aldeias áreas a céu aberto. Como vimos acima os primeiros ceramistas viviam nesta região, no Holoceno, em condições ecológicas semelhantes às atuais, por volta de 8.900 anos antes do presente. Temos ainda registros da presença desses grupos até o período colonial quando foram exterminados e, os poucos que restaram, aculturados. Os grupos ceramistas compartilhavam ambientes diferentes e se localizaram tanto na planície pré-cambriana, como na chapada. Viviam em aldeias, porém, os vestigios arqueológicos encontrados, permitem dizer que os abrigos também foram utilizados para diferentes atividades como acampamentos temporários, práticas rituais como os sepultamentos e, possivelmente, para deixarem as suas mensagens através das pinturas rupestres. As aldeias eram grandes, localizadas em lugares estratégicos, próximas às fontes d’água. Esses mesmos lugares foram utilizados, posteriormente, pelo colonizador, não apenas como uma forma de dominação dos indígenas, mas, porque eram ideiais para a implantação das fazendas de gado e dos primeiros vilarejos ou povoados. Através das informações etno-históricas e arqueológicas podemos dizer que havia uma grande densidade populacional nesta região, porém sobre a sua forma de subsistência temos poucos conhecimentos. As evidências sobre a agricultura são raras nos abrigos e, praticamente inexistentes nas aldeias. No sítio Cana Brava registramos um período de ocupação de mais de 300 anos no mesmo local. Neste sítio encontramos fogueiras com restos de ossos animais, sementes e coquinhos queimados. É possível formular a hipótese de que, por volta de 3.300 anos antes do presente, os ceramistas viviam em pequenos grupos e utilizavam vasilhames de tamanho pequeno com formas simples, porém com técnicas decorativas bastante aperfeiçoadas, de traços bem definidos e delicados, lascavam e poliam os seus instrumentos de pedra, e praticavam uma agricultura que parecia incipiente. A partir de um certo período, talvez por volta de 2.000 anos antes do presente, ocorre um aumento populacional, com a chegada de novos grupos que dominam uma tecnologia bem diversificada. A cerâmica é caracterizada por diferentes formas e tamanhos de vasos, cachimbos de vários tipos, fusos e por uma riqueza decorativa onde aparece as técnicas do corrugado, ungulado, escovado, inciso e o pintado, em peças extremamente finas, bem polidas ou brunidas com tintas de cor vermelha em vários motivos decorativos ou, ainda, numa cerâmica mais espessa, pintada sobre um engobo branco com desenhos geométricos em vermelho e preto. A indústria lítica também é rica e emprega técnicas diversificadas. Nas aldeias encontramos peças polidas e lascadas que foram utilizadas como raspadores, facas, mãos de pilão, batedores e moedores, machados (alguns do tipo semilunar), discos (alguns deles perfurados), tembetás e pingentes usados como adornos. Existem peças, no entanto, como esses discos polidos, descobertos na aldeia da Queimada Nova, cuja função é desconhecida. As materias primas mais utilizadas por esses grupos foram o quartzo, quartzito, xisto, calcedônia, sílex e o granito. Esses grupos ceramistas mostram diversificação nos hábitos funerários. Utilizavam técnicas de sepultamento em urnas funerárias, em fossas na terra ou em depressões rochosas, em enterramentos primários, isto é quando o corpo é definitivamente enterrado e secundários (quando o corpo é enterrado ou deixado em algum lugar especial, até que se desmanchem as partes moles subsistindo apenas os ossos, os quais são então enterrados definitivamente seguindo ritos próprios à cada cultura). No sítio a Toca do Gongo I foram descobertos 9 sepultamentos (4 em urnas funerárias e 5 enterramentos em fossas na terra). Os sepultamentos em urnas eran secundários e fechados com tampas feitas de vasilhas de cerâmica ou cabaças colocadas diretamente sobre o crânio. Os sepultamentos em terra eram também variados e foram achados com os corpos separados das cabeças, mesmo estando os esqueletos em conexão anatômica. Novos dados sobre as formas de sepultamento desses grupos foram revelados em recentes descobertas dos sítios Cana Brava e Toca da Baixa dos Caboclos. Em Cana Brava, sítio localizado no município de Jurema ao sul do Parque Nacional, encontramos dentro da própria aldeia, cinco sepultamentos, primários, em urnas funerárias, de crianças entre um a cinco anos de idade. Procuramos agora descobrir como e onde esse grupo enterrava os adultos. No abrigo Toca da Baixa dos Caboclos, localizado no município de Gervásio de Oliveira, ao norte do Parque Nacional, os enterramentos eram feitos também em urnas e em fossas escavadas na própria rocha do abrigo. Na primeira urna escavada encontramos uma criança, com cerca de seis meses, com cabelos cortados rente na testa e, próximo ao seu crânio uma haste de madeira quebrada em 3 pedaços, parte do enxoval funerário. Como podemos observar através dos dados arqueológicos, existe uma riqueza e variedade de informações sobre esses grupos. Novos estudos estão sendo realizados com a finalidade de estabelecer se as diferenças verificadas nos sepultamentos representam diferenças sociais ou diferenças culturais, assim como, a orígem, o modo de subsistência e a tecnologia dos diferentes grupos ceramistas que ocuparam esta região na pré-história e no período do contato com o europeu. Todos os povos originários da área do Parque Nacional foram exterminados pelos conquistadores brancos e deles, hoje, só nos resta o que a arqueologia consegue descobrir. |
As pinturas rupestres são a manifestação mais abundante, conspícua e espetacular deixada pelas populações pré-históricas que viveram na área do Parque Nacional, desde épocas muito recuadas. Nos primeiros anos de pesquisa fizeram-se sondagens e escavações para datar essas pinturas e situá-las em um contexto sócio-cultural preciso. Esses trabalhos permitiram a descoberta de sítios que apresentavam vestígios de presença humana excepcionalmente antigos, o que incitou os pesquisadores a acelerar e a ampliar as escavações procurando obter uma massa de dados coerentes que fundamentassem esta descoberta que revolucionava as teorias sobre o povoamento das Américas. Entre os anexos encontra-se a lista dos resultados das datações obtidas pela técnica da análise do Carbono 14 para esta área. Essa lista mostra que o Homem já vivia na área do Parque Nacional desde há, pelo menos, 50.000 anos atrás e que sua presença foi contínua até a chegada dos colonizadores brancos. Os povos mais antigos eram caçadores-coletores, isto é, viviam da caça e da coleta de produtos animais e vegetais, como ovos, mel, frutos, raizes, tubérculos, etc. Em três sítios (veja encarte), que são visitados pelo público, encontramos vestígios de presença humana muito antiga: a Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada, a Toca do Sítio do Meio e a Toca do Caldeirão do Rodrigues I. Os três sítios que apresentaram as mais antigas datações obtidas na área do Parque Nacional são abrigos-sob-rocha. Um abrigo-sob-rocha forma-se pela ação da erosão que agindo na base dos paredões rochosos vai desagregando a parte baixa das paredes fazendo com que se forme, no alto, uma saliência. Esta funciona como um teto que protege do sol e da chuva o solo que fica sob o mesmo. Com o progresso da erosão, a saliência torna-se cada vez mais pronunciada até que, sob a ação da gravidade, fratura-se e desmorona. Os homens utilizaram a parte protegida dos abrigos como casa, acampamento, local de enterramentos e suporte para a representação gráfica da sua tradição oral. Sobre os vestígios deixados por um grupo humano, a natureza depositava sedimentos que os cobriam. Novos grupos, novos vestígios, nova sedimentação. A repetição desse ciclo durante milênios forma as camadas arqueológicas, nas quais os arqueólogos encontram todos os elementos que permitem a reconstituição da vida dos povos pré-históricos. Na linguagem regional os abrigos são chamados tocas. A Toca do Boqueirão da Pedra Furada encontra-se a 19 metros acima do nível do vale, protegida por grandes blocos originários do desmoronamento do paredão rochoso. Sua formação deve-se, como em todos os sítios da região, à erosão que cava a base da parede, formando uma projeção que serve de teto. O processo de formação das camadas arqueológicas deste sítio durou, no mínimo, 60.000 anos. As escavações, iniciadas em 1978, duraram 10 anos e permitiram a descoberta dos mais antigos vestígios, até hoje conhecidos, da presença humana nas Américas: fogueiras estruturadas e uma grande quantidade de artefatos de pedra lascada. Blocos de parede com pinturas, caídos sobre as camadas arqueológicas, permitiram a datação das mesmas. Os vestígios mais antigos são duas manchas vermelhas datadas de 23.000 anos, dois segmentos paralelos de reta datam de 17.000 anos, enquanto que pinturas representando temas semelhantes aos que subsistem hoje nas paredes, foram pintadas entre 12.000 e 6.000 anos atrás. Nesse sítio foi possível reconstruir a história das ocupações humanas desde há cerca de 60.000 anos até 6.000 anos atrás. O Sítio do Meio encontra-se a apenas 3 m. acima do nivel do vale e foi cavado por um caudaloso rio que nascia no boqueirão que passa frente ao abrigo. O rio cavou a base da parede e, quando a projeção do teto ficou muito grande, sem sustentação, houve um primeiro desmoronamento, que cobriu a praia do rio. Esse episódio se deu há 20.000 anos. Os homens aproveitaram essa parede e se instalaram atrás dela, protegidos dos ataques dos animais. Depois do primeiro houve mais 3 grandes desmoronamentos, sendo que o último aconteceu há cerca de 8.000 anos. Este sítio é importante porque nele encontramos: fragmentos da cerâmica mais antiga das Américas, datada de 8.960 anos, o primeiro artefato americano de pedra polida, uma machadinha datada de 9.200 anos. Durante muitos anos, até os anos 60, foi utilizado como casa de farinha. Quando iniciamos a escavação encontramos os restos de um forno de farinha, que foi reconstruído segundo a tradição local. A escavação deste sítio ainda não foi terminada. A Toca do Caldeirão dos Rodrigues é um abrigo formado em um vale alto, cerca de 80 m. acima do vale do Boqueirão da Pedra Furada. Suas pinturas, escondidas atrás de um imenso bloco caído, retratam cerca de 12.000 anos de evolução estilística e cultural. As escavações, ainda não terminadas, já permitiram encontrar vestígios da presença humana de 18.000 anos. Na Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada as escavações, iniciadas em 1978, demonstraram que o abrigo foi utilizado pelo homem pré-histórico, pelo menos desde há cerca de 50.000 anos. Os primeiros acampamentos, ocuparam parte da base rochosa próximo à parede do fundo. O local era então protegido do vale por um amontoado de blocos caídos. A medida em que o tempo passava a erosão fazia com que sedimentos desprendidos da parede, cobrissem os vestígios humanos que aí eram depositados de maneira intermitente. Deste modo, formaram-se camadas que refletem 15 fases de ocupação, as quais podem ser agrupadas em 3 fases culturais: uma primeira fase, Pedra Furada, que compreende os grupos mais antigos; a fase Serra Talhada, que corresponde às populações que freqüentaram o abrigo, desde há 12.000 anos B.P. até cerca de -7.000/-6.000 anos e finalmente uma fase que parece corresponder à chegada de um novo grupo na região, a fase Agreste. Durante a fase cultural mais antiga, Pedra Furada, foram construídos grandes fogões circulares utilizando blocos caídos, nos quais se notam ainda leves manchas de pigmento vermelho. Carvões recolhidos em fogões descobertos na mesma camada em que foram encontrados esses blocos puderam ser datados; assim sabemos que, por volta de 23.000 anos atrás, essas populações já aplicavam pigmentos sobre as paredes do abrigo. Um bloco, encontrado ao lado de um fogão datado de 17.000 anos, mostrava duas retas paralelas, sendo esta a primeira manifestação segura da prática da pintura rupestre na área. As sondagens praticadas nos dois outros sítios citados, Toca do Sítio do Meio e Toca do Caldeirão dos Rodrigues I, completam e confirmam esta seqüência crono-cultural. Portanto, as primeiras populações que haviam chegado à região por volta de 50.000 anos atrás, colonizaram-na, adaptaram sua economia e vida social às condições ambientais locais e conseguiram explorar, com sucesso, todos os ecossistemas da região do Parque Nacional. A partir de 12.000-10.000 anos os grupos humanos encontrados já mostram que há diversas culturas diferentes dividindo o espaço e que a as populações são bem mais numerosas que no início. As escavações na Toca do Sítio do Meio permitiram conhecer importantes detalhes sobre a evolução climática na região e sobre a tecnologia dos povos que aí acamparam. Nesse sítio foram descobertos pedaços de cerâmica, datados de 8.960 anos, o que faz delas as mais antigas das Américas. Nele também foi descoberta a primeira peça de pedra polida da Américas, uma machadinha datada de 9.200 anos. Um dos mais importantes sítios para o estudo dessas populações foi a Toca do Baixão do Perna I, escavada durante os anos de 1987 a 1990. Uma sucessão de 6 níveis, sendo o mais antigo datado de 10.500 anos antes do presente, mostrou uma ocupação humana contínua, tendo o sítio servido de acampamento de maneira semi-permanente, desde pelo menos há cerca de 12.000 anos até 3.500 anos atrás. Uma grande quantidade de fogões caracterizava todos esses níveis. No solo, junto a eles, encontramos grande quantidade de pedra lascada e de vestígios da caça que aí foi assada: tatus, preás, mocós, aves, veados, roedores diversos. Restos de frutos e de folhas demonstravam a utilização de recursos vegetais; um fragmento de estipe de carnaúba mostrou que o grau de umidade deveria ter sido mais importante, pois atualmente não existem carnaúbas nesse vale; outra possível explicação seria que os homens pré-históricos a trouxeram de outra área. Os instrumentos de pedra lascada encontrados, apresentam uma certa variação, demonstrando que os grupos ocupantes do abrigo exerciam uma atividade diversificada no interior do mesmo. Lascas retocadas, raspadores de vários tipos, lesmas, facas, pontas, furadores, além de restos de lascamento (percutores, núcleos, lascas e fragmentos) constituem o essencial da coleção. Grande quantidade de pigmento vermelho e restos de parede caída portando figuras pintadas demonstram a prática constante de atividades picturais. Esses povos mais recentes utilizavam não somente as rochas locais como matéria-prima, mas iam também procurá-la em outras áreas. Assim começaram a utilizar o sílex e a calcedônia, matérias-primas extremamente favoráveis ao trabalho do lascamento. A partir de 9.000 anos o sílex torna-se a matéria-prima preferencial e é utilizado com uma preocupação evidente de econômia do material. Sondagens e coletas de superfície feitas em mais de vinte sítios demonstram a expansão notável desses povos, a riqueza e o equilíbrio dessas sociedades que dominavam, toda a área do Parque Nacional. A base econômica continuava a ser a caça, a coleta e a pesca; as pinturas rupestres retratam com detalhes a evolução sócio-cultural desses grupos durante pelo menos 6.000 anos, o que constitui um dos mais longos e importantes arquivos sobre a Humanidade disponível, hoje, no mundo. Houve, a partir de 10.000 anos, uma aridificação marcada pela modificação de uma grande parte dos recursos naturais. Isto tornou os ecossistemas mais frágeis e com pouca capacidade para suportar uma pressão antrópica intensa. Por volta de -6.000 anos desaparecem todos os vestígios dos hábeis artesãos pré-históricos de tradição Nordeste. Em seu lugar, dominam agora vários grupos acantonados dentro de limites definidos: nas serras, nas antigas posses dos povos Nordeste, dominam os povos de tradição Agreste; na planície encontramos manifestações de um povo ligado a uma tradição que tem uma vasta distribuição geográfica em todo o Nordeste: a tradição Itacoatiaras de Leste; este último parece ter aí se instalado desde há mais tempo, talvez cerca de 8.000 anos . Essas sociedades pré-históricas viviam em equilíbrio com o meio ambiente, que utilizavam de diferentes maneiras, sem jamais esgotá-lo. O modelo econômico que podemos deduzir dos estudos feitos na região do Parque Nacional é o seguinte: - no início, ocupando um espaço vazio, sem concorrentes, os primeiros grupos praticaram uma exploração concentrada em certos pontos, pois a rentabilidade era boa e não exigia grandes esforços. Mesmo a matéria-prima para as ferramentas de pedra era sempre a que se encontrava o mais perto possível do sítio; -a partir de 10.000 atrás, pressionados pelas mudanças climáticas e pela provável diminuição do potencial dos ecossistemas, resultado do desaparecimento da megafauna, houve uma adaptação que se manifesta por uma utilização variada, alternativa, de todas as possibilidades oferecidas pelo meio natural. Há até uma seleção da matéria-prima, que passa a ser coletada, às vezes, longe dos acampamentos ou aldeias, buscando uma maior qualidade que resulta em uma eficácia maior no controle da tecnologia da fabricação das peças; - a partir de 3.500-3.000 anos atrás,encontramos os primeiros vestígios deixados por povos agricultores, mas esta prática pode ter existido anteriormente o que deverá ser verificado por novas pesquisas; - entre 3.000 e 1.600 anos, encontramos vestígios de povos que viviam em aldeias redondas que comprendiam entre 10 e 11 casas elípticas, dispostas em volta da praça central. Estas aldeias ocupavam os vales largos da planície da depressão periférica, ou o alto da chapada, nas formações sedimentares. Além de restos de potes de cerâmica, descobrimos mãos de pilão, discos polidos perfurados, machados lascados e semi-polidos, machados polidos e tembetás de jadeíte que completam o complexo técnico desses povos. Tinham costumes funerários muito elaborados e praticavam sepultamentos secundários em urnas ou em covas na terra. Apesar da diversidade dessas sepulturas um fato é constante: a cabeça recebia um tratamento diferenciado: era separada do resto do corpo e enterrada sobre o arranjo feito com os outros ossos, algumas vezes 20 ou 30 cm mais alto que o montículo de ossos longos. A cabeça era sempre coberta, seja por uma cabaça cortada na metade, seja por um recipiente de cerâmica. As plantas cultivadas eram o milho, o feijão, a cabaça e o amendoim. A agricultura nesta área requer uma adaptação técnica e social para poder fazer face às épocas de seca. Nossa hipótese de trabalho é que esses grupos, apesar de plantarem, utilizavam, com a mesma desenvoltura que os caçadores-coletores, os recursos naturais e que, nas épocas de grande seca, se deslocavam para as regiões mais próximas aos grandes rios perenes, por exemplo, o São Francisco, que não fica muito distante da área. Isto implica naturalmente uma organização social na qual os deslocamentos temporários constituíam uma constante no modus vivendi. As pesquisas sobre os grupos de povos ceramistas da região foram numerosas nestes últimos anos o que possibilitou uma primeira reconstituição da vida dessas sociedades. A cerâmica pré-histórica aparece em vários sítios arqueológicos que podem ser abrigos ou aldeias áreas a céu aberto. Como vimos acima os primeiros ceramistas viviam nesta região, no Holoceno, em condições ecológicas semelhantes às atuais, por volta de 8.900 anos antes do presente. Temos ainda registros da presença desses grupos até o período colonial quando foram exterminados e, os poucos que restaram, aculturados. Os grupos ceramistas compartilhavam ambientes diferentes e se localizaram tanto na planície pré-cambriana, como na chapada. Viviam em aldeias, porém, os vestigios arqueológicos encontrados, permitem dizer que os abrigos também foram utilizados para diferentes atividades como acampamentos temporários, práticas rituais como os sepultamentos e, possivelmente, para deixarem as suas mensagens através das pinturas rupestres. As aldeias eram grandes, localizadas em lugares estratégicos, próximas às fontes d’água. Esses mesmos lugares foram utilizados, posteriormente, pelo colonizador, não apenas como uma forma de dominação dos indígenas, mas, porque eram ideiais para a implantação das fazendas de gado e dos primeiros vilarejos ou povoados. Através das informações etno-históricas e arqueológicas podemos dizer que havia uma grande densidade populacional nesta região, porém sobre a sua forma de subsistência temos poucos conhecimentos. As evidências sobre a agricultura são raras nos abrigos e, praticamente inexistentes nas aldeias. No sítio Cana Brava registramos um período de ocupação de mais de 300 anos no mesmo local. Neste sítio encontramos fogueiras com restos de ossos animais, sementes e coquinhos queimados. É possível formular a hipótese de que, por volta de 3.300 anos antes do presente, os ceramistas viviam em pequenos grupos e utilizavam vasilhames de tamanho pequeno com formas simples, porém com técnicas decorativas bastante aperfeiçoadas, de traços bem definidos e delicados, lascavam e poliam os seus instrumentos de pedra, e praticavam uma agricultura que parecia incipiente. A partir de um certo período, talvez por volta de 2.000 anos antes do presente, ocorre um aumento populacional, com a chegada de novos grupos que dominam uma tecnologia bem diversificada. A cerâmica é caracterizada por diferentes formas e tamanhos de vasos, cachimbos de vários tipos, fusos e por uma riqueza decorativa onde aparece as técnicas do corrugado, ungulado, escovado, inciso e o pintado, em peças extremamente finas, bem polidas ou brunidas com tintas de cor vermelha em vários motivos decorativos ou, ainda, numa cerâmica mais espessa, pintada sobre um engobo branco com desenhos geométricos em vermelho e preto. A indústria lítica também é rica e emprega técnicas diversificadas. Nas aldeias encontramos peças polidas e lascadas que foram utilizadas como raspadores, facas, mãos de pilão, batedores e moedores, machados (alguns do tipo semilunar), discos (alguns deles perfurados), tembetás e pingentes usados como adornos. Existem peças, no entanto, como esses discos polidos, descobertos na aldeia da Queimada Nova, cuja função é desconhecida. As materias primas mais utilizadas por esses grupos foram o quartzo, quartzito, xisto, calcedônia, sílex e o granito. Esses grupos ceramistas mostram diversificação nos hábitos funerários. Utilizavam técnicas de sepultamento em urnas funerárias, em fossas na terra ou em depressões rochosas, em enterramentos primários, isto é quando o corpo é definitivamente enterrado e secundários (quando o corpo é enterrado ou deixado em algum lugar especial, até que se desmanchem as partes moles subsistindo apenas os ossos, os quais são então enterrados definitivamente seguindo ritos próprios à cada cultura). No sítio a Toca do Gongo I foram descobertos 9 sepultamentos (4 em urnas funerárias e 5 enterramentos em fossas na terra). Os sepultamentos em urnas eran secundários e fechados com tampas feitas de vasilhas de cerâmica ou cabaças colocadas diretamente sobre o crânio. Os sepultamentos em terra eram também variados e foram achados com os corpos separados das cabeças, mesmo estando os esqueletos em conexão anatômica. Novos dados sobre as formas de sepultamento desses grupos foram revelados em recentes descobertas dos sítios Cana Brava e Toca da Baixa dos Caboclos. Em Cana Brava, sítio localizado no município de Jurema ao sul do Parque Nacional, encontramos dentro da própria aldeia, cinco sepultamentos, primários, em urnas funerárias, de crianças entre um a cinco anos de idade. Procuramos agora descobrir como e onde esse grupo enterrava os adultos. No abrigo Toca da Baixa dos Caboclos, localizado no município de Gervásio de Oliveira, ao norte do Parque Nacional, os enterramentos eram feitos também em urnas e em fossas escavadas na própria rocha do abrigo. Na primeira urna escavada encontramos uma criança, com cerca de seis meses, com cabelos cortados rente na testa e, próximo ao seu crânio uma haste de madeira quebrada em 3 pedaços, parte do enxoval funerário. Como podemos observar através dos dados arqueológicos, existe uma riqueza e variedade de informações sobre esses grupos. Novos estudos estão sendo realizados com a finalidade de estabelecer se as diferenças verificadas nos sepultamentos representam diferenças sociais ou diferenças culturais, assim como, a orígem, o modo de subsistência e a tecnologia dos diferentes grupos ceramistas que ocuparam esta região na pré-história e no período do contato com o europeu. Todos os povos originários da área do Parque Nacional foram exterminados pelos conquistadores brancos e deles, hoje, só nos resta o que a arqueologia consegue descobrir. |
As pinturas rupestres são a manifestação mais abundante, conspícua e espetacular deixada pelas populações pré-históricas que viveram na área do Parque Nacional, desde épocas muito recuadas.
Nos primeiros anos de pesquisa fizeram-se sondagens e escavações para datar essas pinturas e situá-las em um contexto sócio-cultural preciso. Esses trabalhos permitiram a descoberta de sítios que apresentavam vestígios de presença humana excepcionalmente antigos, o que incitou os pesquisadores a acelerar e a ampliar as escavações procurando obter uma massa de dados coerentes que fundamentassem esta descoberta que revolucionava as teorias sobre o povoamento das Américas.
Entre os anexos encontra-se a lista dos resultados das datações obtidas pela técnica da análise do Carbono 14 para esta área. Essa lista mostra que o Homem já vivia na área do Parque Nacional desde há, pelo menos, 50.000 anos atrás e que sua presença foi contínua até a chegada dos colonizadores brancos.
Os povos mais antigos eram caçadores-coletores, isto é, viviam da caça e da coleta de produtos animais e vegetais, como ovos, mel, frutos, raizes, tubérculos, etc.
Em três sítios (veja encarte), que são visitados pelo público, encontramos vestígios de presença humana muito antiga: a Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada, a Toca do Sítio do Meio e a Toca do Caldeirão do Rodrigues I.
Os três sítios que apresentaram as mais antigas datações obtidas na área do Parque Nacional são abrigos-sob-rocha. Um abrigo-sob-rocha forma-se pela ação da erosão que agindo na base dos paredões rochosos vai desagregando a parte baixa das paredes fazendo com que se forme, no alto, uma saliência. Esta funciona como um teto que protege do sol e da chuva o solo que fica sob o mesmo. Com o progresso da erosão, a saliência torna-se cada vez mais pronunciada até que, sob a ação da gravidade, fratura-se e desmorona.
Os homens utilizaram a parte protegida dos abrigos como casa, acampamento, local de enterramentos e suporte para a representação gráfica da sua tradição oral.
Sobre os vestígios deixados por um grupo humano, a natureza depositava sedimentos que os cobriam. Novos grupos, novos vestígios, nova sedimentação. A repetição desse ciclo durante milênios forma as camadas arqueológicas, nas quais os arqueólogos encontram todos os elementos que permitem a reconstituição da vida dos povos pré-históricos.
Na linguagem regional os abrigos são chamados tocas.
A Toca do Boqueirão da Pedra Furada encontra-se a 19 metros acima do nível do vale, protegida por grandes blocos originários do desmoronamento do paredão rochoso. Sua formação deve-se, como em todos os sítios da região, à erosão que cava a base da parede, formando uma projeção que serve de teto.
O processo de formação das camadas arqueológicas deste sítio durou, no mínimo, 60.000 anos. As escavações, iniciadas em 1978, duraram 10 anos e permitiram a descoberta dos mais antigos vestígios, até hoje conhecidos, da presença humana nas Américas: fogueiras estruturadas e uma grande quantidade de artefatos de pedra lascada.
Blocos de parede com pinturas, caídos sobre as camadas arqueológicas, permitiram a datação das mesmas. Os vestígios mais antigos são duas manchas vermelhas datadas de 23.000 anos, dois segmentos paralelos de reta datam de 17.000 anos, enquanto que pinturas representando temas semelhantes aos que subsistem hoje nas paredes, foram pintadas entre 12.000 e 6.000 anos atrás.
Nesse sítio foi possível reconstruir a história das ocupações humanas desde há cerca de 60.000 anos até 6.000 anos atrás.
O Sítio do Meio encontra-se a apenas 3 m. acima do nivel do vale e foi cavado por um caudaloso rio que nascia no boqueirão que passa frente ao abrigo. O rio cavou a base da parede e, quando a projeção do teto ficou muito grande, sem sustentação, houve um primeiro desmoronamento, que cobriu a praia do rio. Esse episódio se deu há 20.000 anos. Os homens aproveitaram essa parede e se instalaram
atrás dela, protegidos dos ataques dos animais. Depois do primeiro houve mais 3 grandes desmoronamentos, sendo que o último aconteceu há cerca de 8.000 anos.
Este sítio é importante porque nele encontramos: fragmentos da cerâmica mais antiga das Américas, datada de 8.960 anos, o primeiro artefato americano de pedra polida, uma machadinha datada de 9.200 anos.
Durante muitos anos, até os anos 60, foi utilizado como casa de farinha. Quando iniciamos a escavação encontramos os restos de um forno de farinha, que foi reconstruído segundo a tradição local. A escavação deste sítio ainda não foi terminada.
A Toca do Caldeirão dos Rodrigues é um abrigo formado em um vale alto, cerca de 80 m. acima do vale do Boqueirão da Pedra Furada. Suas pinturas, escondidas atrás de um imenso bloco caído, retratam cerca de 12.000 anos de evolução estilística e cultural. As escavações, ainda não terminadas, já permitiram encontrar vestígios da presença humana de 18.000 anos.
Na Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada as escavações, iniciadas em 1978, demonstraram que o abrigo foi utilizado pelo homem pré-histórico, pelo menos desde há cerca de 50.000 anos. Os primeiros acampamentos, ocuparam parte da base rochosa próximo à parede do fundo. O local era então protegido do vale por um amontoado de blocos caídos. A medida em que o tempo passava a erosão fazia com que sedimentos desprendidos da parede, cobrissem os vestígios humanos que aí eram depositados de maneira intermitente. Deste modo, formaram-se camadas que refletem 15 fases de ocupação, as quais podem ser agrupadas em 3 fases culturais: uma primeira fase, Pedra Furada, que compreende os grupos mais antigos; a fase Serra Talhada, que corresponde às populações que freqüentaram o abrigo, desde há 12.000 anos B.P. até cerca de -7.000/-6.000 anos e finalmente uma fase que parece corresponder à chegada de um novo grupo na região, a fase Agreste.
Durante a fase cultural mais antiga, Pedra Furada, foram construídos grandes fogões circulares utilizando blocos caídos, nos quais se notam ainda leves manchas de pigmento vermelho. Carvões recolhidos em fogões descobertos na mesma camada em que foram encontrados esses blocos puderam ser datados; assim sabemos que, por volta de 23.000 anos atrás, essas populações já aplicavam pigmentos sobre as paredes do abrigo. Um bloco, encontrado ao lado de um fogão datado de 17.000 anos, mostrava duas retas paralelas, sendo esta a primeira manifestação segura da prática da pintura rupestre na área.
As sondagens praticadas nos dois outros sítios citados, Toca do Sítio do Meio e Toca do Caldeirão dos Rodrigues I, completam e confirmam esta seqüência crono-cultural.
Portanto, as primeiras populações que haviam chegado à região por volta de 50.000 anos atrás, colonizaram-na, adaptaram sua economia e vida social às condições ambientais locais e conseguiram explorar, com sucesso, todos os ecossistemas da região do Parque Nacional. A partir de 12.000-10.000 anos os grupos humanos encontrados já mostram que há diversas culturas diferentes dividindo o espaço e que a as populações são bem mais numerosas que no início.
As escavações na Toca do Sítio do Meio permitiram conhecer importantes detalhes sobre a evolução climática na região e sobre a tecnologia dos povos que aí acamparam. Nesse sítio foram descobertos pedaços de cerâmica, datados de 8.960 anos, o que faz delas as mais antigas das Américas. Nele também foi descoberta a primeira peça de pedra polida da Américas, uma machadinha datada de 9.200 anos.
Um dos mais importantes sítios para o estudo dessas populações foi a Toca do Baixão do Perna I, escavada durante os anos de 1987 a 1990. Uma sucessão de 6 níveis, sendo o mais antigo datado de 10.500 anos antes do presente, mostrou uma ocupação humana contínua, tendo o sítio servido de acampamento de maneira semi-permanente, desde pelo menos há cerca de 12.000 anos até 3.500 anos atrás.
Uma grande quantidade de fogões caracterizava todos esses níveis. No solo, junto a eles, encontramos grande quantidade de pedra lascada e de vestígios da caça que aí foi assada: tatus, preás, mocós, aves, veados, roedores diversos. Restos de frutos e de folhas demonstravam a utilização de recursos vegetais; um fragmento de estipe de carnaúba mostrou que o grau de umidade deveria ter sido mais importante, pois atualmente não existem carnaúbas nesse vale; outra possível explicação seria que os homens pré-históricos a trouxeram de outra área.
Os instrumentos de pedra lascada encontrados, apresentam uma certa variação, demonstrando que os grupos ocupantes do abrigo exerciam uma atividade diversificada no interior do mesmo.
Lascas retocadas, raspadores de vários tipos, lesmas, facas, pontas, furadores, além de restos de lascamento (percutores, núcleos, lascas e fragmentos) constituem o essencial da coleção.
Grande quantidade de pigmento vermelho e restos de parede caída portando figuras pintadas demonstram a prática constante de atividades picturais.
Esses povos mais recentes utilizavam não somente as rochas locais como matéria-prima, mas iam também procurá-la em outras áreas. Assim começaram a utilizar o sílex e a calcedônia, matérias-primas extremamente favoráveis ao trabalho do lascamento. A partir de 9.000 anos o sílex torna-se a matéria-prima preferencial e é utilizado com uma preocupação evidente de econômia do material.
Sondagens e coletas de superfície feitas em mais de vinte sítios demonstram a expansão notável desses povos, a riqueza e o equilíbrio dessas sociedades que dominavam, toda a área do Parque Nacional.
A base econômica continuava a ser a caça, a coleta e a pesca; as pinturas rupestres retratam com detalhes a evolução sócio-cultural desses grupos durante pelo menos 6.000 anos, o que constitui um dos mais longos e importantes arquivos sobre a Humanidade disponível, hoje, no mundo.
Houve, a partir de 10.000 anos, uma aridificação marcada pela modificação de uma grande parte dos recursos naturais. Isto tornou os ecossistemas mais frágeis e com pouca capacidade para suportar uma pressão antrópica intensa.
Por volta de -6.000 anos desaparecem todos os vestígios dos hábeis artesãos pré-históricos de tradição Nordeste. Em seu lugar, dominam agora vários grupos acantonados dentro de limites definidos: nas serras, nas antigas posses dos povos Nordeste, dominam os povos de tradição Agreste; na planície encontramos manifestações de um povo ligado a uma tradição que tem uma vasta distribuição geográfica em todo o Nordeste: a tradição Itacoatiaras de Leste; este último parece ter aí se instalado desde há mais tempo, talvez cerca de 8.000 anos .
Essas sociedades pré-históricas viviam em equilíbrio com o meio ambiente, que utilizavam de diferentes maneiras, sem jamais esgotá-lo. O modelo econômico que podemos deduzir dos estudos feitos na região do Parque Nacional é o seguinte:
- no início, ocupando um espaço vazio, sem concorrentes, os primeiros grupos praticaram uma exploração concentrada em certos pontos, pois a rentabilidade era boa e não exigia grandes esforços. Mesmo a matéria-prima para as ferramentas de pedra era sempre a que se encontrava o mais perto possível do sítio;
-a partir de 10.000 atrás, pressionados pelas mudanças climáticas e pela provável diminuição do potencial dos ecossistemas, resultado do desaparecimento da megafauna, houve uma adaptação que se manifesta por uma utilização variada, alternativa, de todas as possibilidades oferecidas pelo meio natural. Há até uma seleção da matéria-prima, que passa a ser coletada, às vezes, longe dos acampamentos ou aldeias, buscando uma maior qualidade que resulta em uma eficácia maior no controle da tecnologia da fabricação das peças;
- a partir de 3.500-3.000 anos atrás,encontramos os primeiros vestígios deixados por povos agricultores, mas esta prática pode ter existido anteriormente o que deverá ser verificado por novas pesquisas;
- entre 3.000 e 1.600 anos, encontramos vestígios de povos que viviam em aldeias redondas que comprendiam entre 10 e 11 casas elípticas, dispostas em volta da praça central. Estas aldeias ocupavam os vales largos da planície da depressão periférica, ou o alto da chapada, nas formações sedimentares. Além de restos de potes de cerâmica, descobrimos mãos de pilão, discos polidos perfurados, machados lascados e semi-polidos, machados polidos e tembetás de jadeíte que completam o complexo técnico desses povos. Tinham costumes funerários muito elaborados e praticavam sepultamentos secundários em urnas ou em covas na terra. Apesar da diversidade dessas sepulturas um fato é constante: a cabeça recebia um tratamento diferenciado: era separada do resto do corpo e enterrada sobre o arranjo feito com os outros ossos, algumas vezes 20 ou 30 cm mais alto que o montículo de ossos longos. A cabeça era sempre coberta, seja por uma cabaça cortada na metade, seja por um recipiente de cerâmica.
As plantas cultivadas eram o milho, o feijão, a cabaça e o amendoim. A agricultura nesta área requer uma adaptação técnica e social para poder fazer face às épocas de seca. Nossa hipótese de trabalho é que esses grupos, apesar de plantarem, utilizavam, com a mesma desenvoltura que os caçadores-coletores, os recursos naturais e que, nas épocas de grande seca, se deslocavam para as regiões mais próximas aos grandes rios perenes, por exemplo, o São Francisco, que não fica muito distante da área. Isto implica naturalmente uma organização social na qual os deslocamentos temporários constituíam uma constante no modus vivendi.
As pesquisas sobre os grupos de povos ceramistas da região foram numerosas nestes últimos anos o que possibilitou uma primeira reconstituição da vida dessas sociedades.
A cerâmica pré-histórica aparece em vários sítios arqueológicos que podem ser abrigos ou aldeias áreas a céu aberto.
Como vimos acima os primeiros ceramistas viviam nesta região, no Holoceno, em condições ecológicas semelhantes às atuais, por volta de 8.900 anos antes do presente. Temos ainda registros da presença desses grupos até o período colonial quando foram exterminados e, os poucos que restaram, aculturados.
Os grupos ceramistas compartilhavam ambientes diferentes e se localizaram tanto na planície pré-cambriana, como na chapada. Viviam em aldeias, porém, os vestigios arqueológicos encontrados, permitem dizer que os abrigos também foram utilizados para diferentes atividades como acampamentos temporários, práticas rituais como os sepultamentos e, possivelmente, para deixarem as suas mensagens através das pinturas rupestres.
As aldeias eram grandes, localizadas em lugares estratégicos, próximas às fontes d’água. Esses mesmos lugares foram utilizados, posteriormente, pelo colonizador, não apenas como uma forma de dominação dos indígenas, mas, porque eram ideiais para a implantação das fazendas de gado e dos primeiros vilarejos ou povoados.
Através das informações etno-históricas e arqueológicas podemos dizer que havia uma grande densidade populacional nesta região, porém sobre a sua forma de subsistência temos poucos conhecimentos. As evidências sobre a agricultura são raras nos abrigos e, praticamente inexistentes nas aldeias.
No sítio Cana Brava registramos um período de ocupação de mais de 300 anos no mesmo local. Neste sítio encontramos fogueiras com restos de ossos animais, sementes e coquinhos queimados.
É possível formular a hipótese de que, por volta de 3.300 anos antes do presente, os ceramistas viviam em pequenos grupos e utilizavam vasilhames de tamanho pequeno com formas simples, porém com técnicas decorativas bastante aperfeiçoadas, de traços bem definidos e delicados, lascavam e poliam os seus instrumentos de pedra, e praticavam uma agricultura que parecia incipiente.
A partir de um certo período, talvez por volta de 2.000 anos antes do presente, ocorre um aumento populacional, com a chegada de novos grupos que dominam uma tecnologia bem diversificada. A cerâmica é caracterizada por diferentes formas e tamanhos de vasos, cachimbos de vários tipos, fusos e por uma riqueza decorativa onde aparece as técnicas do corrugado, ungulado, escovado, inciso e o pintado, em peças extremamente finas, bem polidas ou brunidas com tintas de cor vermelha em vários motivos decorativos ou, ainda, numa cerâmica mais espessa, pintada sobre um engobo branco com desenhos geométricos em vermelho e preto.
A indústria lítica também é rica e emprega técnicas diversificadas. Nas aldeias encontramos peças polidas e lascadas que foram utilizadas como raspadores, facas, mãos de pilão, batedores e moedores, machados (alguns do tipo semilunar), discos (alguns deles perfurados), tembetás e pingentes usados como adornos.
Existem peças, no entanto, como esses discos polidos, descobertos na aldeia da Queimada Nova, cuja função é desconhecida. As materias primas mais utilizadas por esses grupos foram o quartzo, quartzito, xisto, calcedônia, sílex e o granito.
Esses grupos ceramistas mostram diversificação nos hábitos funerários. Utilizavam técnicas de sepultamento em urnas funerárias, em fossas na terra ou em depressões rochosas, em enterramentos primários, isto é quando o corpo é definitivamente enterrado e secundários (quando o corpo é enterrado ou deixado em algum lugar especial, até que se desmanchem as partes moles subsistindo apenas os ossos, os quais são então enterrados definitivamente seguindo ritos próprios à cada cultura).
No sítio a Toca do Gongo I foram descobertos 9 sepultamentos (4 em urnas funerárias e 5 enterramentos em fossas na terra). Os sepultamentos em urnas eran secundários e fechados com tampas feitas de vasilhas de cerâmica ou cabaças colocadas diretamente sobre o crânio. Os sepultamentos em terra eram também variados e foram achados com os corpos separados das cabeças, mesmo estando os esqueletos em conexão anatômica.
Novos dados sobre as formas de sepultamento desses grupos foram revelados em recentes descobertas dos sítios Cana Brava e Toca da Baixa dos Caboclos. Em Cana Brava, sítio localizado no município de Jurema ao sul do Parque Nacional, encontramos dentro da própria aldeia, cinco sepultamentos, primários, em urnas funerárias, de crianças entre um a cinco anos de idade. Procuramos agora descobrir como e onde esse grupo enterrava os adultos. No abrigo Toca da Baixa dos Caboclos, localizado no município de Gervásio de Oliveira, ao norte do Parque Nacional, os enterramentos eram feitos também em urnas e em fossas escavadas na própria rocha do abrigo. Na primeira urna escavada encontramos uma criança, com cerca de seis meses, com cabelos cortados rente na testa e, próximo ao seu crânio uma haste de madeira quebrada em 3 pedaços, parte do enxoval funerário.
Como podemos observar através dos dados arqueológicos, existe uma riqueza e variedade de informações sobre esses grupos. Novos estudos estão sendo realizados com a finalidade de estabelecer se as diferenças verificadas nos sepultamentos representam diferenças sociais ou diferenças culturais, assim como, a orígem, o modo de subsistência e a tecnologia dos diferentes grupos ceramistas que ocuparam esta região na pré-história e no período do contato com o europeu.
Todos os povos originários da área do Parque Nacional foram exterminados pelos conquistadores brancos e deles, hoje, só nos resta o que a arqueologia consegue descobrir.
Fronteira Ecológica
A ecologia é a ciência que se ocupa de entender a natureza. Na busca de entender as complexas relações que regem a harmonia entre seres vivos e o ambiente que elas ocupam, a ecologia se concentra em identificar a função de cada organismo, ou espécie (grupo de organismos que descendem uns dos outros e que em condições naturais não cruzam com organismos de outro grupo), e como o conjunto destes organismos, as populações de espécies diferentes, são modificados e se adaptam aos fatores climáticos, geológicos, químicos e até mesmo às ações do homem.
As “matas brancas” do nordeste do Brasil ou caatingas, como as chamavam os nativos, são formações biogeográficas caracterizadas por plantas xeromórficas (que perdem todas suas folhas na época seca). Ocupa 650.000 km 2 do Nordeste do Brasil, exceto a faixa litorânea, dos quais apenas 0,1 % encontram-se preservados legalmente.
O Parque Nacional Serra da Capivara, encravado na caatinga, é fruto de uma história geológica, climática e biológica complexa. A diversidade da vida presente hoje, só foi possível graças a variabilidade dos relevos e aos múltiplos habitats escavados em milhares de anos pela força das águas.
As condições climáticas, permitiram que a floresta tropical úmida ocupasse até o Piauí há cerca de 60.000 anos. Com a retração das florestas úmidas imposta pelo início do ressecamento, por volta dos 18.000 anos, algumas espécies desapareceram, outras se retrairam com seus ambientes originais, algumas resistiram encravadas em refúgios mais úmidos (os boqueirões ou canyons) e são os testemunhos vivos desta história. As espécies que permaneceram foram, cada uma de sua maneira, animais e plantas, se adaptando aos diversos ambientes da caatinga. Hoje estas espécies são novas espécies, típicas dos novos tempos.
Espécies testemunhos das épocas úmidas podem ser ainda encontradas na região como uma população relictual de jacarés amazônicos da espécie Cayman crocodilus que vive na Fazenda Veneza (nos limites do Parque) e constitui o limite de ocorrência, a sudeste, desta espécie no país. Duas espécies de louro, Ocotea fasciculata e Poutteria reticulata, árvores tipicamente amazônicas ainda estão presentes no Parque.
O contato com o cerrado e seus elementos de flora e fauna estão presentes até hoje. Esta relação mais duradoura entre caatinga e cerrado, permite que espécies de animais, principalmente de grande porte e/ou de maior mobilidade, sejam comuns a estes dois ecossistemas. Contudo, nem de longe a caatinga e o cerrado são iguais. A ocorrência natural do fogo, comum no cerrado, e inexistente na caatinga, a não ser quando provocado pelo homem, e a disponibilidade de água talvez sejam as principais diferenças.
O clima impõe o ritmo biológico no semi-árido e economizar água é essencial para todos. As chuvas são raras, irregulares e as temperaturas altas. Não há rios perenes no Parque. São comuns os longos períodos de estiagem, como a grande seca de 1983, onde a precipitação foi zero por 3 anos. Há porem os anos bons, como 1996 e 1997, quando as chuvas se extenderam de outubro a fim de maio (normal-mente vão de outubro a março), totalizaram mais de 990 mm distribuidos por muitos dias e sobre uma ampla área.
Os “caldeirões” se enchem garantindo suprimento para os próximos anos.
O relevo é determinante nas diferenças locais de precipitação e temperatura. A chapada, a planície e os baixões (declives mais ou menos suaves da chapada para a planície), são mais secos e quentes, próximo aos paredões das serras e no interior dos boqueirões o micro-clima é mais úmido e fresco. A extensão (às vezes maior que 8 km) e a altura (chegando a 200 m) dos paredões proporcionam mais sombra, barram o vento diminuindo a evaporação e condensam as correntes de ar formando as chuvas orográficas.
Como vimos, o arranjo da cobertura vegetal é determinado, principalmente, pela insolação e o tipo de solo. Assim a chapada, a planície e os baixões são cobertos pelas caatingas arbustiva e arbórea que variam de alta, alta densa, baixa aberta, baixa, média densa a baixa densa. No interior dos boqueirões estão as florestas semi-decíduas com árvores altas (até 30 m) e que na sua maioria mantém folhas verdes todo o ano. Entre as mais frondosas, podemos encontrar as gameleiras (Ficus rufa) e os pau d’arco (Tabebuia impetiginosa). Ao redor dos caldeirões e olhos d’água florescem samambaias, avencas, imbaúbas (Cecropia cf. peltata) e gramas. Nos lajedos, extensões de afloramentos rochosos, comuns em todo o Parque, e que acompanham as bordas superiores dos boqueirões, encontram-se as maiores concentrações e variedades de cactáceas e bromeliáceas.
A taxa de endemicidade (espécies típicas) da flora é alta. Das 615 espécies de plantas encontradas na caatinga 72 % são específicas do sudeste do Piauí. Estas plantas, arrumadas como num mosaico, estão expostas ao sol durante quase todo o dia e se fixam em solos basicamente arenosos e/ou rochosos, incapazes de acumular água de modo suficiente. Folhas pequenas, a capacidade de perdê-las totalmente na seca, raizes profundas, a presença de numeroso espinhos, os caules capazes de estocar água em seus tecidos e a presença de inúmeras espécies com tubérculos (raizes ou caules subterrâneos que acumulam substâncias nutritivas) são algumas das adaptações que permitem a sobrevivência destas plantas. O extrato herbáceo é efêmero e só aparece, ainda que mal representado, na época das chuvas. Os cipós (lianas) são abundantes.
A decomposição da caatinga é lenta e dificultada pela baixa umidade e altas temperaturas. A camada de folhas secas acumulada no solo (serrapilheira) chega, em alguns locais a mais de 30 cm de altura e é o habitat da lagartixa-mole (Micrablepharus maximiliani), muitos besouros e outros artrópodes. O processo de decomposição e enriquecimento do solo é acelerado por ajudantes competentes. São cupins e formigas de várias espécies que, em batalhões, transportam folhas e restos orgânicos da superficie, através das galerias subterrâneas dos cupinzeiros e formiguerios, para as camadas mais profundas do solo onde a temperatura é menor, a umidade é maior e assim o apodrecimento é possível. São insetos muito abundantes na chapada, embora ocorram em todo o Parque.
Apesar deste regime, muitas vezes drástico e cruel aos nossos olhos, a vida na caatinga está sempre fervilhando. Mesmo quando tudo está seco e a vegetação parece morta há um harmonioso rodízio de florações e frutificações que garantem a reprodução das plantas através de um intrínseco relacionamento entre polinizadores (insetos, principalmente as muitas espécies de abelhas, beija-flores, como a espécie endêmica Phaetornis gounellei e morcegos) e dispersores de sementes (animais que ingerem os frutos e vão espalhar as sementes ingeridas através de suas fezes). No parque os principais dispersores de sementes são os morcegos frugívoros, como o Artibeus planirostris, muitas aves, o guariba (Alouatta caraya) e a raposa (Cerdocyon thous).
Neste lugar, os animais, assim como as plantas, também se adaptaram às condições físicas do ambiente. Entre as adaptações selecionadas destacam-se as fisiológicas, como a capacidade de assimilar água dos alimentos e transpirar pouco e, principalmente, as adaptações comportamentais. A maioria dos animais tendem a ser crepusculares e boa parte são noturnos escondendo-se durante o dia em abrigos sombreados, nas tocas e frestas das rochas ou em buracos escavados no solo. Cobras e lagartos são exceções e permanecem ativos nas horas quentes do dia por que necessitam do calor do sol para manter sua temperatura corporal. Entretanto, espécies como a cascavel (Crotalus durissus), a jararaca da caatinga (Bothrops erythromelas) e a coral verdadeira (Micrurus ibiboboca) apresentam hábitos crepusculares e noturnos em concordância com o período de atividade de suas presas. Mesmo as aves, animais tipicamente diurnos evitam as horas mais quentes do dia, apresentando atividade maior nas primeiras horas do amanhecer e nas últimas do entardecer.
Um fenômeno inusitado e tipicamente comportamental pode ser visto na ocasião da primeira chuva na margem de açudes secos ou ao longo das bacias coletoras de água. Alguns minutos após a enxurrada, dar alguns passos significa pisar em dezenas de sapos que “brotam” do chão. São tantos e aparecem tão rápido que são conhecidos como “sapos da enxurrada”. São sapos da espécie Bufo granulosus que se mantêm enterrados, a cerca de 15 cm de profundidade nas margens destas reservas de água por que, mesmo quando estas já estão secas ainda guardam bastante umidade permitindo-lhes viver. A chuva traz o sinal de que a vida na superfície é possível, que há local propício para as posturas e chances de sobrevivência de ovos e girinos. Algumas outras espécies de anfíbios também se enterram em locais que mantém umidade mas, a maioria está totalmente restrita a locais onde a água é sempre disponível.
A presença permanente de água, também é a condição para a sobrevivência dos pequenos lambaris, Astyanax sp., encontrados em corpos d’água aparentemente isolados, mas que possivelmente podem estar ligados por alguma via subterrânea a outras reservas de água.
Refugiar-se ou manter-se sob algum tipo de forma de resistência ou dormência são estratégias diferentes usadas com o mesmo fim por muitas espécies de animais e plantas em ambientes semi-áridos. Estas estratégias fazem com que os indivíduos só estejam ativos e visíveis nas épocas propícias e geralmente em grande abundância. Este é o caso das borboletas da família Pieridae que surgem aos milhares após as chuvas e de uma espécie de aranha social, Mastophora sp., que somente durante o período de chuvas faz teias colonias, com até 446 indivíduos, e com 15 m de comprimento e 6m de altura. Encontramos outros exemplos em muitas espécies de artrópodes.
Da mesma forma, o mês de setembro é a época onde a maioria dos mamíferos e aves se acasalam. Os nascimentos começam por volta do mês de outubro e coincidem com a época para qual se espera a ocorrência das primeiras chuvas.
Frente às dificuldades impostas pelo clima, a presença de numerosos boqueirões tem importância estratégica para a fauna. Animais que necessitam de sombra, umidade e utilizam as folhas como componente principal de sua dieta, vivem quase que restritos a estes habitats. Outros se refugiam pelo menos uma parte do dia ou do ano dentro dos boqueirões. Os inúmeros abrigos disponíveis nos paredões que delimitam estes boqueirões complementam a importância deste habitat, pois aí nidificam araras azuis (Ara chloroptera), papagaios (Amazona aestiva), periquitos (Aratinga cactorum e Aratinga leucophtalma), a águia chilena (Geranoaetus melanoleucos), espécies de andorinhas e ainda outras aves. A “lagartixa-da-serra” (Tapinurus helenae) é uma espécie nova só encontrada no Parque Nacional Serra da Capivara e tem seu habitat totalmente restrito as áreas rochosas dos paredões e lajedos onde se alimenta de insetos e frutos de cactus como os da coroa-de frade, Melocactus bahiensis.
Os mocós (Kerodon rupestris), roedor endêmico das caatingas também vive exclusivamente nos lajedos e paredões das serras. São muito sensíveis aos distúrbios humanos, principalmente a voz. São folívoros mas durante os períodos secos se alimentam basicamente das cascas e resinas das árvores. Estão presentes nesta região há pelo menos 30.000 anos, datação obtida de coprólitos (fezes mumificadas naturalmente) encontrados nos sítios arqueológicos.
A presença de um tipo de verme intestinal, o nematoda Trichuris sp. só encontrado nos coprólitos, comprova que nesta época o clima era mais úmido, o que permitia a manutenção desta parasitose. Para completar seu ciclo e contaminar novos hospedeiros, o Trichuris lança seus ovos ao solo através das fezes de seu hospedeiro. Lá, se as condições de temperatura e umidade forem favoráveis o ovo eclode liberando uma larva que passa por 3 estágios, sendo que a última forma vai penetrar ativamente através da pele de um novo hospedeiro. Hoje, esta verminose está extinta nos mocós da região, a falta de umidade no solo impossibilitou a sobrevivência dos ovos e larvas no solo. Destino diferente teve o Strongyloides ferreirai, outro nematoda que por ter seu ciclo de contaminação direto, isto é a larva passa de um hospedeiro a outro, é menos suscetível às modificações climáticas. Esta verminose está presente até hoje nos mocós do Parque.
Como os recursos disponíveis no interior dos boqueirões são limitados, e procurá-los em outros lugares significa passar de um boqueirão para outro, por cima da chapada seca e quente, os boqueirões podem ser considerados como verdadeiras ilhas para algumas espécies. Este é o caso dos guaribas, Alouatta caraya, maiores primatas do Parque e que estiveram quase que desaparecidos por pelo menos 10 anos. Sua distribuição está restrita aos boqueirões onde se alimentam de brotos e folhas como as de pau d’arco (Tabebuia impetiginosa), frutos de jatobá (Hymenaea sp.), grão de galo (Cordia piauihiensis) e sementes de maçanzeira (Pouteria sp.). São animais sociais e o tamanho do grupo e as condições físicas dos animais refletem a diversidade (riqueza e abundância) de alimento a que o grupo tem acceso. No Parque, os grupos de guariba até hoje observados não ultrapassam 6 indivíduos (normalmente 1 macho, 2 fêmeas e 2 a 3 jovens e filhotes). Provavelmente, o tamanho do grupo e o nível de perturbação antrópica dentro dos boqueirões levou esta espécie quase ao desaparecimento. As medidas de proteção, principalmente a restrição do uso dos boqueirões, permitiu que a espécie se restabelecesse. Em 1996, pudemos identificar 4 grupos dentro do Parque.
Ainda não sabemos exatamente o grau de isolamento das espécies restritas aos boqueirões. Certamente varia de espécie para espécie e de acordo com a sazonalidade. Por isso, supomos que mesmo que demore muito tempo, em algum momento, principalmente quando o verde na caatinga é continuo, alguns indivíduos conseguirão transpor estas barreiras naturais e se encontrar com outros individuos de sua espécie que habitam outros boqueirões ou mesmo outras áreas. Estas possibilidades de encontros permitem que os genes (unidades funcionais da hereditariedade) de um grupo se misturem com os de outro, garantindo à população uma variabilidade maior de características genéticas que podem significar, na prática, uma maior resistência à determinadas doenças, a possibilidade de adaptação às mudanças do ambiente e muito mais. A manutenção deste fluxo gênico entre indivíduos e populações é que garante a perpetuação das espécies. Contudo a dinâmica deste fluxo depende diretamente da continuidade e da integridade dos ambientes silvestres, pois é através deles que animais e plantas poderão se dispersar e manter tais encontros. A continuidade de ecossistemas e das áreas de transição entre eles é hoje a maior ameaça à sobrevivência das espécies e a manutenção da biodiversidade. Cada vez mais as áreas naturais estão se tornando ilhas cercadas por cidades, plantações, pastos e estradas. O Parque Nacional Serra da Capivara ainda possue boa parte de caatinga em seu entorno, e se desejarmos mantê-lo assim devemos cuidar para que estas áreas de continuidade não sejam degradadas ou totalmente destruídas pelo crescimento não planejado.
Assim como os boqueirões, a presença de algumas espécies parecem ser chave para o equilibrio deste ecossitema. Estas espécies podem ser espécies que provém alimento e abrigo para muitas outras espécies, de muitos grupos diferentes, ou serem espécies predadoras que controlam o crescimento de suas presas mantendo-as em equilibrio. Nem todas as espécies de importância coletiva ou chave já são conhecidas mas, algumas já puderam ser identificadas. Entre elas, está o angico (Anadenanthera macrocarpa), espécie que já sofre erosão genética no nordeste do Brasil e que nas suas formações em bosques provém abrigo e alimento, como a sua goma largamente utilizada por insetos, aves, e mamíferos como o soinho, ou mico-estrela (Callithrix jacchus) e o mocó. O desaparecimento quase total do tamandua-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) vem causando sério desequilibrio na chapada, seu habitat predileto. A diminuição das populações de edentados e principalmente, a extinção regional do tatu canastra (Priodontes maximus),vem causando sério desequilibrio ao ecossistema do Parque. A ausência destas espécies predadoras de cupins e formigas, respectivamente, possibilitou O crescimento descontrolado destes insetos. Na chapada já observamos uma taxa superior a 70% de árvores atacadas por cupins.
Apesar de inúmeros estudos interdisciplinares já realizados e em andamento em toda a caatinga, a riqueza deste ecossistema e também do Parque Nacional Serra da Capivara ainda não é totalmente conhecida. A tendência geral de extender a pobreza das populações humanas à pobreza da biodiversidade é comum, mas muito longe da verdade. Os atuais estudos mostram que a caatinga é um ecossistema mais rico do que se suponha e do que nos contam os relatos tradicionais. As novas e abundantes espécies recentemente descobertas no Parque, são a prova de que ainda há muito o que se conhecer. Cada micro habitat a ser estudado promete surpresas inesperadas.
Pelas variadas influências sofridas ao longo de milhares de anos, podemos reconhecer o Parque Nacional Serra da Capivara como uma fronteira ecológica, o cenário ativo de uma história ainda não acabada e que somente os descendentes dizimados do homem pré-histórico poderiam nos contar em detalhes. Sem o auxílio dos povos nativos, cabe à ciência desvendar esta história. Mais do que isso, cabe à ciência nos ensinar a admirar e a conservar este magnífico e surpreendente ecossistema.
Caramba Prof, todos os lugares em que vc passou sao simplesmente de mais. Nao vejo a hora de chegar em casa e ver as novas fotos e lugares que nao imaginava que seriam tao bacana. As fotos dos desenhos rupestres sem comentarios. Esse e o motociclismo que sonho e que se Deus quiser irei realizar tb. Grande abraco e curta muito sua viagem. A sede ficou legal, so falta o bifinho do Prof para concretizar. Abraco.
ResponderExcluirDal,
ResponderExcluirSuas fotos estão incríves e os lugares são maravilhosos!
Espero um dia ter a oportunidade de conhecer lugares fantásticos como esses...
Estou acompanhando o blog diariamente e aguardo mais fotos e notícias!
Boa viagem! Abraços Vitor Tossini
Itau... ai sim...como esta os churrascos ai???
ResponderExcluirEsta eu e o Marcio aqui... estamos acompanhando a viagem !!! Abraço e te cuida !!
So pra avisar, seus brinquedinhos ja estao na mao.
ResponderExcluirAgora Falcoes e HD.
Abraco
Você esta magro!!!! Qual a próxima cidade em que você estará para lhe enviar uma costela assada via sedex?!!!!!
ResponderExcluirFilosofo - Falcões MC
CARA!!!! O QUE SÃO ESSAS PINTURAS RUPESTRES!?!? Deve ter sido animal ver isso de perto!
ResponderExcluirE essas formações rochosas hein!! demais as fotos!
Concordo com o Filó, precisamos te enviar uma costelinha assada pra engordar esse rosto!
Abraços!
valeu henrique andar de moto pra mim é isso, quando tiver um tempo a gente viaja junto abraços.
ResponderExcluirValeu Vitor.
Falou Thiago Itau e Meu irmão, espero que goste das fotos.
que legal Henrique agora é que ninguem segura mais as filmagens dos falcões.
Pô filó uma costela agora ia cair muito bem, mas quando eu chegar a gente queima uma ai na sede rsrsrsrsrsr.